“…viramos adultas quando aprendemos a ser responsáveis com nós mesmas, sejamos ou não casadas, tenhamos ou não filhos.”
Outro livro que demorei meses para ler. Apesar de interessada no tema – a proposta da Kate Bolick de desmistificar o sentido pejorativo da palavra “solteirona”– não gostei do estilo de escrita da autora. Precisei me esforçar um pouco para conseguir terminar esse livro. E compensou? Não rsrs. Mas vamos lá!
Solteirona – o direito de escolher a própria vida, da autora americana Kate Bolick, foi publicado originalmente em 2015. A proposta do livro como já mencionei é relevante: desmistificar o sentido pejorativo da palavra solteirona. Esse objetivo ela alcança sim. Através da sua própria jornada ela descreve como cinco despertadoras a ajudaram a entender sua escolha que se impunha mesmo quando ela estava em um relacionamento. Além disso, ela constrói todo um contexto histórico sobre o tema, que para mim foram as melhores partes do livro.
Kate Bolick é feminista, e isso eu preciso comentar: encontrei nela a mesma incoerência que percebi em Lori Gottlieb. Ambas afirmam que o casamento não é o centro de suas vidas, que não é o que desejam — mas, ao narrar suas próprias buscas (de sentido?), fica claro e evidente que essa questão ocupa um espaço muito maior do que elas admitem. No caso da Kate, isso aparece quando ela insiste na ideia de independência, mas passa as mais de 300 páginas relembrando seus relacionamentos, quase sempre como marcos que definem sua trajetória. Lori faz algo parecido: critica a centralidade do casamento, mas constrói o livro inteiro em torno da própria relação com essa expectativa.
Mas bem, o ponto da autora não é pregar que todas as mulheres devam evitar o casamento. O que ela propõe é desmontar a figura da “solteirona” do imaginário popular — aquela mulher vista como velha, feia, mal‑amada, perdida ou louca. Para a autora ser solteirona significa: agarrar-se ao que a torna independente e autossuficiente.
Para mim, já partilhando um pouco da minha visão, a vida e a essência de uma mulher não devem ser limitadas ao contexto do casamento e da maternidade. Como cristã, quando penso sobre qualquer tema gosto de fazer dois exercícios:
Primeiro, verifico o que Deus diz. E faço das palavras do amado pastor John Piper as minhas: O propósito final do universo, e para toda história, e para a sua vida, é demonstrar a Glória de Cristo em sua maior expressão… Eu consigo ver nas Escrituras a profundidade, intensidade e significado que Deus deu à mulher como auxiliadora e mãe, mas não consigo enxergar isso como uma limitação. Vejo como algo tão amplo que ultrapassa o contexto do próprio casamento.
Segundo, olho para o mundo e a história. Em todas as sociedades, antigas ou modernas, houve mulheres que viveram fora do modelo conjugal — e muitas delas contribuíram de forma decisiva para a cultura, a ciência, a arte e a vida comunitária. Muitas dessas mulheres viveram vidas plenas, criativas, espiritualmente profundas e socialmente relevantes — o que desmonta a ideia de que a ausência de casamento define falta ou fracasso. Além disso, a própria existência dessas mulheres revela como a expectativa de que toda mulher deve se realizar apenas no casamento não é uma verdade universal. As solteironas existem, sempre existiram, e tentar enxergá‑las apenas pela perspectiva pejorativa é, no mínimo, ignorância.
Um outro e último ponto do livro que gostaria de comentar é uma pergunta que a autora faz várias vezes: o que é uma solteirona? Com quantos anos você se torna uma solteirona? Ela é a mulher que nunca se casou, ou viúvas e divorciadas entram nesse grupo também? Se for considerar o significado que ela propõe para o termo, solteirona é a mulher que escolhe preservar aquilo que a torna independente, autossuficiente e capaz de conduzir a própria vida — com ou sem relacionamento, com ou sem casamento. Achei interessante e inovador.
Fica um elogio para a capa e para a ousadia de retratar um tema nada hipado em um livro.

Livro: Solteirona - O direito de escolher a própria vida (Spinster: Making a life of One´s Own, 2015)
Autora: Kate Bolick (1972- )
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016
Páginas: 356
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★★☆☆☆


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