Ontem eu coloquei um pouco de macarrão dormido no microondas. Era uma quantidade mínima e eu sabia que três minutos eram muito, mas mesmo assim deixei – como sempre faço, au-tos-sa-bo-ta-gem. Estava bem ali o tempo todo, mas me recusava a sequer olhar para o microondas, quanto mais desligá-lo. Quando enfim abri a porta e levantei a tampa protetora o vapor subiu e queimou imediatamente a minha mão. O macarrão virou borracha e minha mão latejava.
Sentei para jantar. Legumes assados, pernil assado e macarrão dormido. Minha mão me incomodou o restante da noite e eu devo ter comentado duas ou três vezes com a minha mãe e minha irmã. Porque eu sou de falar, não suporto sentir dor – não suporto.
Falei, mas não fiz nada para amenizar a dor. Parece que falar é alívio para mim.
Dormi normal. A queimadura não foi tão grande ou grave. Hoje nem lembrava dela até agora quando olhei minhas mãos sobre o teclado. Não está doendo nem passando os dedos por cima. Nem bolha deu. Tudo que restou foi uma manchinha vermelha. Lembrando da dor pulsante me parece totalmente desproporcional.
Por que eu fiz aquilo? Por que eu esquentei o macarrão dormido daquela forma conscientemente desproporcional? Hoje eu ouvi um podcast de uma psicóloga dizendo: quer conhecer uma pessoa de verdade? Não olhe as atitudes apenas, olhe as reações.
O macarrão dormido no microondas não foi uma ação minha, foi uma reação. Ao perceber o exagero: três minutos. Eu reagi não fazendo nada. Eu me recusei a interferir. Não quis saber. Mas agora eu sei: queimei a mão, queimei a mão. Eu não fiz nada por isso queimei a mão.

Deixe uma resposta