Em quase toda a Europa havia guerra, superpopulação (em relação aos recursos disponíveis), estagnação e declínio econômicos, imundície, aglomeração, doenças epidêmicas (além da peste) e fome, bem como instabilidade climática e ecológica.
… a modernidade é uma coisa muito frágil.
O crescimento explosivo – e a soberba do homem – sempre paga o seu preço.
A maioria dos historiadores modernos acredita que o que chamamos de a Peste Negra surgiu em algum lugar da Ásia Central e depois se espalhou para o oeste, em direção ao Oriente Médio e à Europa, e para o leste, em direção à China, pelas rotas do comércio internacional. Um ponto de origem frequentemente mencionado é o planalto da Mongólia.
À medida que crescia o número de mortos, as ruas teriam ficado cheias de animais selvagens, alimentando-se de restos humanos, soldados embriagados saqueando e estuprando, velhas arrastando cadáveres pelas ruínas e edifícios em chamas cuspindo labaredas e fumaça na Crimeia. Haveria um número imenso de roedores em passo cambaleante e uma estranha espuma de sangue nos focinhos, pilhas de corpos armazenados como feixes de madeira em praças públicas e em todos os olhares uma expressão de pânico enlouquecido ou de sombria resignação. As cenas no porto, o único meio de fuga de Caffa sitiada, teriam sido especialmente horrendas: turbas ensandecidas e guardas bramindo espadas, crianças lamuriando por seus pais perdidos ou mortos, gritos e praguejamentos, todos se empurrando na direção dos navios lotados e, para além da confusão, nas galeras que partiam, passageiros orando abraçados uns aos outros sob o enorme velame branco enfunado, ignorantes de que embaixo do convés, nos porões escuros e abafados, centenas de ratos portadores da peste de coçavam e farejavam a brisa marinha.
… o continente [Europeu] perdeu 25 milhões de seus 75 milhões de habitantes. Mas em certas partes da Itália urbana, do leste da Inglaterra e da França rural, a perda de vidas humanas, foi bem maior, ficando entre 40% e 60%.
A Peste Negra era particularmente cruel com crianças e mulheres, que morriam mais do que os homens, provavelmente porque passavam mais tempo dentro de casa, onde o risco de contágio era maior, e era mais cruel, entre todos, com as mulheres grávidas, que invariavelmente davam à luz antes de morrer.
No século XIV, a guerra era quase tão constante quanto a fome.
O corpo humano, na Idade Média, estava em um estado tão espantoso quanto a rua medieval.
A passagem da peste para o homem é motivada pelo desespero da X. cheopis. Ela não gosta particularmente do sangue humano, mas, como a peste aniquila a comunidade local de ratos, as únicas opções da pulga são a fome ou o Homo sapiens. Depois de acomodada na população humana, a pulga do rato se torna um vetor de infecção muito eficiente.
A Grande Mortandade, de John Kelly. Publicado originalmente em 2005. Tradução de Caetano Waldrigues Galindo. Bertrand, 2011 Giambattista Tiepolo, Saint Thecla Frees the City of Este from the Plague (detail), oil on canvas, cm. 675 x 390, Este (Padua), cathedral.


Deixe uma resposta