“Que é a loucura se não for o vazio de significado? Ou quem sabe centenas de significados chocando-se sem uma linha que os ligue a um só sentido?”
“Elas me encaravam como se a partir de qualquer observação, se compreendesse o outro. Enquanto eu, curioso sobre quem elas eram e o que estavam fazendo ali, também observava de igual forma, esperando que daquele silêncio emergissem ideias de identidade.”
“Decidi ser um louco num sábado qualquer, num dia ordinário, numa data comum.” Quem fala é o narrador e protagonista sem nome, de Risco Escuro na Claridade, uma novela publicada de forma independente agora em 2018, pelo escritor brasileiro Maiky Silva.
De um só ímpeto, em uma narrativa em primeira pessoa, o autor consegue nos emergir completamente na leitura. Ao que tudo parece, o homem que nos conta sua história direto de um futuro ainda desconhecido, decidiu passar-se por louco e aos poucos, rememora os motivos e como tudo aconteceu. Fazendo-nos duvidar em vários momentos de sua sanidade – ficou louco de fato, ou não? – e a estabilidade, da nossa.
A obra é sobre essa tentação ao desmoronamento, que todo ser humano lida em sua mente. Afinal quem poderia dizer quais são os limites da sanidade. Como o sofrimento, o abandono, o desamparo, podem vir a romper no abismo da falta de significado, do nada, da loucura.
Maiky conseguiu, sem muitas descrições, desenvolver personagens que tocam o leitor, seja pela identificação ou pelo asco. Pela compaixão ou pela náusea. Efeito realmente difícil de fazer, principalmente em um espaço limitado como da novela. Nenhum personagem tem nome, mas pelo menos o principal, deixa-nos um gosto amargo.
A loucura no livro é retratada de várias formas, convites à reflexão:
“um poço cego, sem entrada nem saída”
“não pisar no chão no qual devia, e apenas flutuar sobre ele”
A sanidade também é ponderada:
“temos que pisar no chão. E pisar de novo. E ir.”
“apresentavam o poço da consciência tediosa e a atitude de enveredar pelo caminho pedregoso consciente das pedras […] fizesse ou não fizesse, sofreria. Mas apenas uma das opções não havia o remorso.”
Há na obra também, uma crítica social um tanto velada, do preconceito contra aqueles que ultrapassam os limites da “normalidade”. Uma denúncia dos abusos físicos e emocionais, a ministração indevida de medicamentos; o furto da identidade que ocorre, assim que o individuo é apontado: desajustado, louco, descontrolado, fora de si. E não para por aí. Ele nos confronta ao tirar-nos a máscara e revelar a indiferença humana, não só com os “loucos”, mas com a dor (seja qual for) dos outros. Maiky, corajosamente corrige o pensamento de Sartre: “O inferno não são os outros. Os outros só são indiferença”
+INFO Ebook: Risco Escuro na Claridade | Autor: Maiky Silva | Publicação independente, Amazon 2018 | Páginas: 61 | Amazon | ★★★★☆

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