Defino o embotamento espiritual como o estado de sono profundo ou a apatia que impede a alma de perceber, sentir ou responder a Deus.
Não é ausência e nem abandono da fé e também não é apostasia – ainda. É algo mais sutil e, por isso, tão perigoso quanto: é quando o coração continua crendo, mas sem sensibilidade espiritual; quando a alma ainda acredita, mas sem adoração.
Nos últimos anos tenho observado os efeitos dessa doença espiritual e percebido que muitas pessoas vivem nesse estado sem saber nomeá-lo – e portanto, sem saber explicá-lo. Elas sentem um incômodo, que vou chamar de uma profunda insatisfação: uma sensação de distância de Deus, de frustração com as pessoas e consigo mesmo. Tudo isso é experimentado de forma difusa, sabem que tem algo errado, mas não conseguem explicar o quê.
O que proponho aqui então é uma espécie de autoexame, um convite à clareza. Como disse anteriormente, me parece uma boa coisa, antes de tudo, a alma reconhecer seu real estado.
Se você se reconhecer em alguns desses sintomas, não leia isso como um julgamento, mas como um favor da graça e um sinal de despertamento.
Vazio
O primeiro sintoma de embotamento espiritual é ovazio interior persistente. Não é o vazio do silêncio contemplativo, nem do cansaço, nem de um deserto de provação. É um vazio raso, barulhento, ansioso, que pede distração constante. Jesus disse: aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna. (João 4:14) O vazio do embotamento é sinal que a alma está seca. Não está jorrando água como deveria. Aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede, não há água, mas o pior de tudo é que também não há sede.
A alma até ora, até lê a Bíblia, até vai à Igreja, mas sem fome e sede de Deus. Tudo parece correto, mas nada parece vivo.
Esse vazio é angustiante e a alma para se proteger reclama uma distração constante: séries, redes sociais, compras, debates, produtividade, qualquer coisas que evite o encontro com o silêncio. Porque o silêncio, para uma alma embotada, é ameaçador – ele revela o quanto se está longe da Fonte. Sobre isso Joe Coffey e Bob Bevington escreveram:
O problema é que estamos acostumados demais com o barulho. Temos rádios, TVs, notebooks, celulares e iCoisas. De vez em quando, preciso me afastar e encontrar o silêncio. Venho aprendendo que o silêncio é algo que você deve procurar e que, quando finalmente encontra, pode ser quase ensurdecedor.
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Não pouco tempo atrás, saí em busca de silêncio. Encontrei-o em um muro de pedra. Apenas me sentei no muro respirando, olhando ao redor e, finalmente, comecei a senti-la. A angústia. Acho que o barulho impede as pessoas de senti-la. E é por causa dessa angústia que, por exemplo, não podemos nem sair para uma caminhada sem fones de ouvido disparando distração em nossos cérebros.
Telespectador: a fé como entretenimento
O segundo sintoma é o que chamo de modo telespectador. É quando a pessoa não cultua, ela assiste o culto; ou não adora, ela ouve a adoração. É quando a pessoa começa a achar que assistir um culto ou uma pregação online é o mesmo que se reunir com seus irmãos, pois de qualquer forma, ela só assiste mesmo, que diferença faz?
Ela consome conteúdo cristão todos os dias – pregações, podcasts, debates, livros etc – mas tudo com uma incrível distância e frieza. Há informação, ela sabe falar sobre os assuntos. Há conhecimento, esse não é o problema. O problema é que não há arrependimento, conversão, amor…
O telespectador da fé, se emociona com os testemunhos, ama a história da igreja, compartilha frases inspiradoras nas suas redes e ama participar dos eventos. Mas raramente se deixa confrontar. Se acha superior, não preciso disso. Ele observa a fé dos outros como quem observa um espetáculo edificante, sem permitir que aquilo reorganize sua agenda, seus hábitos, sua vida.
A espiritualidade para essa alma virou conteúdo. Não existe pessoalidade alguma na sua fé, nem a prática das disciplinas espirituais, muito menos humilhação, renúncia ou cruz.
Memória curta
Qual foi o texto lido da última pregação que você ouviu? O que você disse recentemente para Deus em oração? Qual foi a sua prece? Qual é a direção do Espírito Santo para tua vida hoje?
O terceiro sintoma de embotamento espiritual é a memória espiritual curta. A alma embotada se lembra das dores, das frustrações, dos escândalos e maus testemunhos, e até das orações não respondidas (ou não respondidas como ela esperava), mas esquece dos livramentos, das graças, das providências e dos milagres cotidianos. Essa alma se esqueceu também do primeiro amor, quando Jesus era tudo para ela, quando ela estava disposta a segui-lo até por um deserto.
Ela vive como se Deus nunca tivesse agido, como se cada crise fosse uma prova que Deus a abandonou ou que a fé não está dando certo para ela. A ingratidão tomou seu coração, ela está entregue às murmurações e as vezes até sente saudades do mundo. Essa alma beira à desistência.
Na Bíblia, lembrar é um ato espiritual. Israel erguia memoriais, contava as histórias do povo de Deus para seus filhos, celebrava festas, escrevia salmos. Esquecer as obras de Deus, seu grande amor, sua maravilhosa graça e misericórdia… Esquecer de Deus, é um estado grave de dureza de coração.
Sem transformação: a fé que não muda nada
O quarto e talvez mais revelador sintoma é a ausência de transformação.
A pessoa embotada espiritualmente pode conhecer as doutrinas, defender posições teológicas, participar de comunidades, ter cargos na igreja, mas continua essencialmente a mesma: os mesmos pecados, os mesmos ressentimentos, os mesmos padrões, as mesmas reações emocionais desgovernadas, a mesma falta de amor prático.
A fé quando viva, transforma. A mudança acontece de dentro para fora, através da renovação da mente (Rm 12.2). Ela muda as prioridades, a maneira de falar, a maneira de agir, coloca limite aos desejos e impulsos, e acima enche o coração de amor por Deus e pelo próximo.
Não se trata de perfeição, mas de um processo que precisa acontecer. A pergunta é estou sendo transformado? Estou sendo progressivamente conformado à imagem de Cristo?
Se a resposta for não, talvez não seja falta de fé ou conhecimento ou esforço — talvez seja embotamento.
Um convite ao despertar
Se você identificou um, dois ou todos esses sintomas, não se desespere. O embotamento espiritual não é o fim da fé, mas sinal que você precisa urgentemente despertar.
Deus é especialista em dar jeito naquilo que não tem jeito.
Não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que fumega; Isaías 42:3
Talvez você não esteja longe de Deus; talvez esteja apenas anestesiado. Mas agora repito: é hora de despertar desse sono.
No próximo post dessa série, quero falar sobre como despertar desse sono espiritual — práticas, decisões e disposições interiores que, ao longo da tradição cristã, sempre foram caminhos de reavivamento da alma.
Para terminar, responda ainda algumas perguntas para si mesmo:
- Quando foi a última vez que você sentiu profunda alegria na presença de Deus?
- Você consome muita espiritualidade, mas pratica pouco silêncio, oração, jejum, confissão, generosidade e serviço?
- Você se lembra com gratidão das intervenções de Deus na sua vida, ou vive como se estivesse sempre sozinho no deserto?
- Quem convive com você percebe frutos concretos da sua fé, ou ela é uma convicção privada sem impacto público?
Referências
* Citações Bíblicas da Versão NAA
* Tony Reinke - A Guerra dos Espetáculos. Editora Fiel, 2020.
* Imagem Pinterest

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