Apesar de não haver nenhuma referência direta, o contexto do salmo 55 parece indicar que se passa durante a crise de Davi com seu filho Absalão e o conselheiro Aitofel.
Nesse momento, Davi reinava em Jerusalém. Agora, não eram apenas os problemas militares que o atormentavam, mas as intrigas palacianas. O perigo já não era tão claro como em sua fase de jovem guerreiro. Os inimigos passaram a assumir outras faces e agir de maneiras mais sutis. O rei percebe que não pode confiar nos homens – como outrora confiara sua vida a Jonatan. Ele entendeu que só podia depositar sua confiança no Senhor Deus.
Davi se mostra cansado e abatido. Notamos passividade em sua oração, exposta principalmente em seu desejo de fuga, diferente da altivez que víamos no pastor que enfrentou o gigante filisteu anos antes. O governante de Israel estava vendo sua autoridade fracassar em várias esferas: fracassou como pai, deixando que um grave pecado passasse impune em seu meio, o que gerou o problema com Absalão; falhou enquanto rei, o que levou ministros e súditos a se aliarem com seu filho rebelde.
A estrutura da oração de Davi é bem didática. Ele começa se aproximando de Deus (v.1-2a “Dá ouvidos, ó Deus, à minha oração; não te escondas da minha súplica. Atende-me e responde-me […]”) e expõe seus medos. Deseja fugir (v.6-7 “Quem me dera ter asas como a pomba […] eis que fugiria para longe […]”), todavia, não pode, pois agora não se trata apenas de um indivíduo, mas do representante de uma nação escolhida pelo próprio Deus – um Deus que lhe prometeu o cetro eterno.
A prece inicia com sentimentalismo, porém, aos poucos, a oração clareia sua mente e ele passa a raciocinar melhor, analisando o ocorrido. Ele não estava cercado pelos inimigos tradicionais, mas por aqueles que não apenas se diziam seus amigos, como iam à Casa do Senhor com ele (v.14 “[…] íamos com a multidão à Casa de Deus”).
O motif da Casa de Deus é frequente em textos davídicos. No salmo 27:4, declara: “Uma coisa peço ao Senhor e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo.” Seu sonho era construir um templo majestoso para o Deus de Israel, o que o próprio Senhor proibiu.
Por esse lado, a traição de Absalão e Aitofel não foi apenas pessoal e política: foi espiritual. Eles traíram o próprio Senhor dos Exércitos. Não sairiam impunes. Davi clama por justiça e reconhece que Deus tem o controle da História em suas mãos, o que o acalma (v.22-23): “Lance os seus cuidados sobre o Senhor e ele o susterá; jamais permitirá que o justo seja abalado. Tu, porém, ó Deus, os lançarás na cova profunda. Homens sanguinários e fraudulentos não chegarão à metade dos seus dias; eu, todavia, confiarei em ti.”
A situação fez com que o rei de Israel aprendesse algumas lições que são colocadas nesse salmo. Em primeiro lugar, ele adquiriu maturidade para julgar corretamente aqueles que o cercavam. Percebeu que a vida de rei e a vida militar são diferentes e que o exercício de poder causa intrigas internas que as vitórias do passado não são capazes de evitar.
No entanto, ele não se rende e não abre mão dos seus princípios. Um governante corrupto governa com mais facilidade, pois consegue comprar ministros e servos. O rei justo e temente a Deus precisa enfrentar os desafios de mãos limpas e de acordo com a Lei do Senhor. Posteriormente, em nome da diplomacia, seu filho e sucessor, o rei Salomão, abdicaria seus valores: casou com mulheres pagãs e permitiu que estas praticassem seus cultos na Terra Santa. Ele perdeu o zelo que seu pai tinha. A fidelidade e o amor ao Senhor Deus é uma das marcas do rei Davi.
Uma das coisas que nutria a confiança de Davi no agir de Deus era o seu conhecimento da história de Israel. Quando lemos o Antigo Testamento, facilmente perdemos a noção do tempo e enxergamos tudo como sendo basicamente na mesma época, mas não foi. A saída do povo do Egito, por exemplo, já era um acontecimento distante na época de Davi. Ainda assim, ele cria em tudo e tinha a certeza de que o mesmo Deus continuava sustentando seu povo escolhido.
Essa é uma concepção bem judaica da História, algo que contribuiu para que esse povo conseguisse manter sua integridade e identidade ao longo de cinco milênios de perseguições e diásporas: a mesma religião, a mesma língua, o mesmo território (ainda que incompleto), a mesma nação.
Lendo o Livro de Ester (como abordamos no texto O Deus do Purim e a prefiguração feminina do Cristo) ou o Diário de Anne Frank, para citar dois momentos diferentes e reais na História, percebemos a ideia de que ainda que Deus não intervenha miraculosamente naquele instante, para salvar aquelas pessoas, nada foge de seu controle e, de uma forma ou de outra, o povo hebreu prevaleceria, pois Aquele que guarda Sião não dorme: ele é o Yaweh Tsevaó (Senhor dos Exércitos), o El Gibbon (Deus Forte), o Jeová Jireh (Aquele que provê), o Jeová Tsidkenu (Senhor da Justiça), o El Shaddai (Todo Poderoso), o Jeová Shammah (Deus onipresente), o Jeová Shalom (Senhor da Paz).
A situação na qual Davi se encontrava nesse momento pode ser comparada com a do profeta Jeremias, por exemplo. Ambos foram traídos por pessoas próximas, sentiram angústia, medo e vontade de fugir, mas encontram alegria e força no Senhor. Também podemos comparar com o caso de Jesus, que, sendo traído por um amigo, manteve plena confiança no propósito do Pai. Nenhum servo de Deus foi poupado de algum tipo de sofrimento: “No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo. (Jo 16:33b)”
Davi demonstra medo, fúria e fé. A fraqueza de Davi o torna relacionável: a experiência específica está distante de nós, mas o sentimento não. O trabalho historiográfico é importante para compreender melhor as Escrituras, contudo, é secundário. O sentimento é o foco em vários momentos (ainda que não em todos): Deus entende os anseios humanos, se compadece de nós e se preocupa em expor em sua Palavra uma ‘pedagogia das emoções’.
A fraqueza e os fracassos dos heróis da fé são significativos. Vivemos uma era onde o mundo prega empoderamento e valorização da autoestima através de frases motivacionais superficiais que não sustentam ninguém em tempos de crise. Na Bíblia, vemos exemplos reais de pessoas que passaram por situações difíceis e venceram com fé no Senhor, o que tem inspirado a igreja a suportar grandes aflições ao longo do tempo, das perseguições romanas à opressão comunista, para citar alguns exemplos.
O apóstolo Paulo diz ( 2Co 4:7-18, grifos meus): “ Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não nossa. Somos atribulados por todo lado, contudo não angustiados; […]; perseguidos, mas não abandonados;[…] porque a nossa leve aflição, que é apenas por um momento, opera para nós um extraordinário e eterno peso de glória; não olhamos para as coisas que se veem, mas para as coisas que não se veem; porque as coisas que se veem são temporais, mas as coisas que não se veem são eternas.” E também (2Co 12:9-10): “[…] De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse sobre mim. Portanto, eu tenho prazer nas fraquezas, nas censuras, nas necessidades, nas perseguições, nas aflições por causa de Cristo. Porque quando eu estou fraco então eu sou forte.”
Davi olhava para as coisas que não se veem e a perspectiva da vida eterna nos braços do Pai o susteve em todos os momentos difíceis de sua vida. Deus foi glorificado em cada conquista do pastorzinho, do soldado e do rei Davi. Ele tinha a consciência de ser um vaso de barro nas mãos do Oleiro, de ser um instrumento de guerra das mãos do Senhor dos Exércitos.
Ele era um homem segundo o coração de Deus por que ele amava a Deus e a lei do Senhor e buscava ter comunhão com Ele dia e noite (v.16-7): “Eu, porém, invocarei a Deus, e o Senhor me salvará. À tarde, pela manhã e ao meio-dia, farei as minhas queixas e lamentarei; e ele ouvirá a minha voz.” Davi é o arquétipo do homem de coração contrito, que humildemente se apresenta diante do trono de Deus e busca abrigo debaixo das asas do Altíssimo. Um exemplo de como o poder divino se aperfeiçoa na fraqueza.
Para finalizar, um conselho do pregador britânico Charles Spurgeon em seus escritos Tesouros de Davi: “Tempos de grandes necessidades requerem tempos de frequentes práticas devocionais. Começar, permanecer e terminar o dia com Deus é sabedoria suprema.”
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Referências: * Salmos volume 1: comentário Esperança (Dieter Schneider, tradução de Doris Körber) * Salmos 1-72: o livro das canções e orações do povo de Deus (Hernandes Dias Lopes)

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