A inveja mata – O que é a inveja e por que ela cresce nas redes sociais

Ela raramente se apresenta de forma escancarada. Quase nunca diz seu nome. Costuma vestir roupas aceitáveis: comparação, desânimo, ironia, crítica, silêncio ressentido. Mas continua sendo o que sempre foi: inveja. O autor Bob Sorge diz em seu livro “Inveja O Inimigo Interior” que inveja é o problema que ninguém tem. Ninguém admite ser invejoso, mas para nossa decepção a realidade é outra.

Vivemos em um tempo em que a inveja está em todo lugar e cada vez mais é normalizada na sociedade. O fenômeno das redes sociais potencializou algo que já existia no coração humano: a constante comparação com a vida, o corpo, a família, a carreira, os dons… do outro. Nunca tivemos tanto acesso à vida do outro. Nunca fomos tão expostos ao sucesso alheio. A questão é que o ser humano tem dificuldade de alegrar-se genuinamente com seu semelhante. Sei que ninguém gosta de admitir isso, mas é verdade. E sendo assim, a inveja não precisa de grandes coisas para surgir, basta apenas um coração que perdeu a capacidade de discerni-la antes que ela tome conta de tudo.

A inveja precisa ser chamada pelo nome

Uma das maiores armadilhas espirituais do nosso tempo é suavizar pecados antigos com nomes modernos.  A inveja virou “gatilho”, “baixa estima”, “crise existencial”, “injustiça da vida”. Embora todos esses sentimentos possam realmente coexistir, há momentos em que o nome correto para o que estamos sentindo é apenas um: INVEJA.

Na Bíblia, dar nome às coisas é um ato espiritual. Deus cria dando nome. Jesus liberta nomeando. O pecado perde força quando deixa de ser um vulto indefinido e passa a ser reconhecido. Enquanto não chamamos inveja de inveja, ela continua operando nas sombras, corroendo relações, envenenando afetos e distorcendo nossa percepção da realidade. A inveja não é apenas “querer o que o outro tem” – isso é cobiça. Ela é mais profunda e mais grave.

O que é inveja segundo a Bíblia?

Biblicamente, a inveja é o ressentimento diante do bem do outro, acompanhado do terrível desejo – consciente ou não – de que esse bem diminua, desapareça ou nunca tivesse existido. Segundo a Infopédia, inveja é: o desejo de possuir algo que outra pessoa possui ou de usufruir de uma situação semelhante à de outrem (geralmente acompanhado de animosidade face a quem detém o objeto de cobiça e de vontade de que esse outrem o não tivesse). Em outras palavras, inveja é a dor e agonia que sentimos diante da felicidade do outro e o desejo de que essa felicidade não existisse.

Inveja é a dor e agonia que sentimos diante da felicidade do outro, e o desejo de que essa felicidade não existisse.

É por isso que ela aparece com tanta força nos textos bíblicos ligados à morte e à ruptura:

  • Caim mata Abel, não porque lhe faltasse algo, mas porque Deus se agradou do outro (Gn 4).
  • Os irmãos de José o vendem, incapazes de lidar com o favor que repousava sobre ele (Gn 37).
  • Saul passa a perseguir Davi, não por ameaça real, mas por inveja do reconhecimento que Davi recebeu (1Sm 18).
  • Os líderes religiosos entregam Jesus, movidos por inveja (Mt 27:18).

A inveja mata porque ela não suporta a vida do outro. Ela não tolera que Deus seja generoso de formas diferentes. No cristianismo, a inveja é classificada como um pecado do coração, ligado diretamente ao orgulho e à incredulidade.

Quem inveja, no fundo, questiona o caráter de Deus:

“Porque para ele e não para mim?”

“Por que agora?”

“Por que desse jeito”

Bob Sorge é incisivo ao afirmar que a inveja não é apenas um problema emocional, mas um problema espiritual grave, porque nos coloca em oposição direta à vontade soberana de Deus.

A inveja e o fio dos vícios e virtudes

Na tradição cristã, especialmente na ética das virtudes, a inveja é considerada um vício capital — não porque seja o pior de todos, mas porque gera outros pecados.

Da inveja nascem:

  • a maledicência (falar mal do outro),
  • a crítica constante,
  • a alegria secreta com a queda alheia,
  • o isolamento,
  • a ingratidão,
  • o ódio disfarçado de justiça,
  • a incapacidade de celebrar.

Ela também corrói virtudes essenciais da vida cristã:

  • mata a gratidão, porque o foco sai do que Deus fez e vai para o que Ele fez ao outro;
  • enfraquece a mansidão, porque o coração se torna reativo;
  • destrói a humildade, pois o ego passa a exigir reconhecimento;
  • sufoca a caridade, porque amar quem prospera se torna insuportável.

A inveja nos treina a olhar para a vida não como dom, mas como competição. E onde tudo é competição, o amor não sobrevive.

As redes sociais: o terreno fértil da inveja

Como eu disse no inicio desse artigo, as redes sociais não criaram a inveja, mas deram a ela um megafone com certeza. Todos os dias somos confrontados com recortes cuidadosamente editados da vida alheia. Mesmo sabendo que são fragmentos, o coração frequentemente reage com a comparação.

O problema não é ver a vida do outro. O problema é quando essa visão se transforma em medida para avaliar a própria vida — e, pior, o próprio valor.

Agostinho já advertia que o pecado não começa nas ações visíveis, mas na desordem dos afetos. Quando o amor perde seu eixo — quando diante da felicidade do outro só conseguimos nos comparar — o coração adoece. A inveja nasce exatamente aí: quando o bem do outro passa a ser experimentado como ameaça, e não como sinal da generosidade de Deus.

A inveja é uma paixão poderosa que corroí qualquer relacionamento. Ela não nega ou blasfema contra Deus diretamente, mas desconfia silenciosamente da sua bondade.

A única saída: o verdadeiro amor

A solução cristã para a inveja não é força de vontade, nem isolamento social, nem negação emocional e nem mesmo a saída das redes sociais (apesar de que esse último eu recomendo fortemente). A resposta é o amor verdadeiro.

O amor bíblico não apenas suporta o outro — ele admira o outro: “cada um considere os outros superiores a si mesmo.” (Fp 2:3). Ele se alegra com a graça que repousa sobre o próximo. Ele reconhece dons sem se sentir diminuído.

Paulo escreve em 1 Coríntios 13 que o amor não inveja. Não porque seja indiferente, mas porque está plenamente enraizado em Deus. Quem ama de verdade sabe que o favor de Deus não é um jogo de soma zero. A bênção do outro não rouba a minha. Na verdade, a benção do outro precisa ser a minha.

Bob Sorge ensina que a cura da inveja passa por aprender a honrar aquilo que Deus faz nos outros, mesmo quando isso expõe nossas próprias dores, frustrações ou atrasos. O verdadeiro amor diz: “Que bom que Deus te abençoou.” E diz isso sem ranger os dentes.

No fim, a inveja morre quando o coração se arrepende e volta a descansar. Descansar em quem Deus é. Descansar no tempo de Deus. Descansar no amor que não compete, não compara e não se ressente.

Porque onde há amor verdadeiro, a inveja não encontra morada.


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